sábado, 17 de agosto de 2013

Perigeu

A tarde começava a findar quando decidi procurar, discernindo no horizonte um bom lugar para passar a noite ao relento. Caminhava em direcção às montanhas para, durante uma semana, viver longe de seres humanos, para que pudesse dar livre-trânsito aos meus pensamentos desta forma ininterruptos. Afastei-me da sociedade para pensar, pois há muito não me dedicava a alimentar a minha faceta filosófica. Avançava por um estreito trilho de terra, ladeado, de um lado, por uma floresta e do outro por um pequeno riacho. Na outra margem do riacho uma escarpa elevava-se a uma altura impossível de trepar. Quando a lua subiu no céu apercebi-me que provavelmente estava no perigeu, o ponto em que o nosso satélite natural se encontra mais perto da Terra. Contemplei a lua cheia e gigantesca com enorme prazer. O sol ainda não se tinha posto, por isso revestia a lua com uma bonita aura dourada. Meia hora antes de o sol se pôr entrei numa clareira da floresta e andei um pouco até chegar a uma ravina, antes da qual havia um pequeno espaço com tufos de erva onde me podia deitar. A falésia caía para um precipício enorme do qual tive medo de me aproximar. Daquele lugar conseguia ver o horizonte numa vasta extensão. Para chegar a parte da montanha onde me encontrava tivera de percorrer aquela terra verdejante lá em baixo, onde alguns animais pastavam. A magnífica lua derramava o seu brilho nessa pradaria e eu senti um êxtase divino por contemplar tão celestial beleza. Enfiei-me no meu saco cama estendendo uma toalha debaixo de mim para que o orvalho nocturno não me incomodasse. Não planeava começar já a dormir, só queria sentir-me confortável enquanto escutava silenciosamente, tentando até alhear-me do ruído da minha respiração e do bater do meu coração. Discernia alguns animais, sendo que aqueles cujo canto mais me encantava eram as aves nocturnas. A lua próxima mostrava a sua face com grandes dimensões, permitindo ver facilmente a sua violenta superfície desbastada por meteoros. Quando a noite caiu e eu sentia a minha consciência abandonar-me enquanto era embalado pelos sons da Natureza, um vento forte abateu-se sobre as árvores atrás de mim, fazendo-as vergar, como se tivessem a fazer reverência à lua. A noite ficou agitada e alguns pássaros fugiram atabalhoadamente pelos ares, tal como um grupo de três raposas que desapareceu para a floresta afastando-se da lua. O vento uivava cada vez mais forte quando reparei em várias sombras percorrendo a lua. Nunca na vida vira semelhante fenómeno. Olhei com mais atenção e percebi que as sombras, que pareciam pertencer a vultos, tremiam na superfície lunar. Senti o meu coração a palpitar na minha boca e um enorme pânico invadiu-me o espírito. Estava a tremer e não conseguia sair daquele lugar, como se tivesse congelado pelo terror, os meus olhos foram incapazes de se afastar da enorme lua que parecia o palco de um espectáculo daqueles jogos de sombras que se fazem com a mão. O meu terror aumentou quando vi a quem pertencia parte da sombra. Um homem, com uma longa capa vermelha, uma armadura de bronze, um elmo dourado com plumagem carmim na cabeça e empunhando uma longa lança na mão direita corria pela lua abaixo. A sua sombra projectava-se à sua frente, porém parecia haver outra sombra movendo-se, aproximando-se. Passado um pouco surgiu outro homem, este vestido com uma longa túnica branca que lhe cobria todo o corpo. Aproximava-se sorrateiramente do primeiro homem que avançava sem se ter dado conta da presença do da túnica branca. O vento cessara e agora nada se ouvia a não ser uma enorme quietude e o meu coração palpitante. Cada vez mais próximo, o homem da túnica levou a mão ao interior da túnica e desembainhou um punhal ondulado com um cabo de madeira. Ergueu a mão no ar como quem vai apunhalar e continuou a aproximar-se. Gritei, tentando avisar o homem da túnica, mas ainda que a lua estivesse próxima, ele não me pôde ouvir e continuou a sua corrida alheio ao ameaçador homem da túnica que estava quase a alcançá-lo. Quando ficou mesmo atrás dele gritei novamente e, não sei se ele me ouviu ou se simplesmente sentiu o outro a aproximar-se, o que é certo é que quando ele se voltou para o da túnica já era tarde de mais para usar a sua longa lança e o homem de branco desferiu-lhe um mortal golpe no coração. O homem da capa vermelha estacou e caiu morto instantaneamente. Um rio de sangue libertou-se do seu peito e encheu a lua com um líquido carmesim, dando à lua um incrível brilho vermelho. No céu as nuvens ficaram mais carregadas e ameaçadoras, o vento recomeçou a uivar e depois de um trovão iluminar a noite terrestre começou a chover sangue da abóbada celeste.

1 comentário:

  1. Excentricional!!!
    Começou excrpcional numa narrativa detalhada que me trouxe a memória o incrivel "Frankeinstein", e ficou insano, excentrico, mas incrivel com esse toque final de magia.
    Adorei

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